Ponto de vista

UM ACORDO PARA O FIM DOS PROTESTOS


Caro leitor(a)

Antes de mais nada devo dizer que  o abaixo exposto é apenas o meu ponto de vista. Respeito o seu.

Sinceramente, não entendi. Repentinamente, em um país onde milhões são roubados diariamente, vinte centavos a mais nas passagens fazem a diferença?

Creio que entender a série de protestos que eclodiu nas principais capitais brasileiras esteja desafiando a capacidade até mesmo dos grandes analistas políticos. Apesar da globalização ter dado a tudo que ocorre nos dias de hoje um caráter conjuntural, a principal característica das atuais manifestações, além da anarquia típica desse tipo de movimento, me parece ser a crescente perda do foco. Há uma mistura de reivindicações cujo elo com o aumento das tarifas é pequeno ou nenhum, as quais pareciam estar atravessadas na garganta de um bom número de brasileiros que agora foram às ruas, em aparente solidariedade ao movimento estudantil. Há cartazes e palavras de ordem com reivindicações de hospitais, de escolas, de ruas, de saneamento, em protesto contra a realização da copa, contra a corrupção e contra uma série de outras coisas, numa confusa mistura de aspirações antigas e recentes que sugerem tudo, menos um movimento organizado que tenha um objetivo definido. Mas solidariedade, sem dúvida não é  a  palavra. Tem algo por trás disso aí. O povo brasileiro pode até ser alegre, hospitaleiro, oportunista, tirador de vantagem, mas não solidário.

E, invariavelmente, da velha e clássica forma, o vandalismo vem junto.  Da mesma e repetida maneira, os manifestantes dão ao  poder público o  ingrediente perfeito para justificar a repressão pela força. E lá se vão jovens incitados e incitando à violência, ao confronto e ao infrutífero risco, onde o objetivo é substituído por uma medição estúpida de forças e a voz da razão é abafada pelos gritos e pedradas. O mais lamentável é que, como já aconteceu em outras manifestações do gênero, é gente nossa agredindo e às vezes matando gente nossa. Na melhor das hipóteses, somos nós destruindo nosso próprio patrimônio. 

No tão criticado cenário do passado, disse Vandré que havia "soldados armados, amados ou não”. No de hoje há mais que isso. Há policiais que são pais, que pagam as passagens e hoje vêem seus filhos à frente dos próprios escudos. E há filhos que nem pagam passagens que hoje estão à frente desses escudos, olhando seus pais com sangue nos olhos. Considerando os supostos avanços democráticos do Estado brasileiro, pergunto se era essa a liberdade tão ansiada. Será que esse comportamento medieval é uma atitude inteligente?  Será que é necessário? Não seria mais inteligente votar na hora e da maneira certa?

 No mesmo cenário do passado, pouquinho antes, Charles de Gaulle, durante pendengas comerciais sobre lagostas capturadas em águas brasileiras, teria dito que o Brasil não era um país sério. Na verdade, a frase foi dita pelo diplomata brasileiro Carlos Alves de Souza Filho, quando embaixador do Brasil na França, durante o governo de João Goulart. De qualquer forma, independentemente de quem seja o autor, até hoje há “patriotas” que têm chiliques com essa afirmativa.  Pois bem, continua não sendo um país sério. Aliás, não é sério, não é solidário e muito menos patriota. Basta que olhemos nossos próprios governantes. São ex-guerrilheiros, ex- ativistas estudantis, ex- integrantes da luta armada, e uma série de outros “ex”, cuja “ideologia inabalável, que seria escrita com sangue” está hoje comodamente instalada  no Planalto, portanto, do outro lado. 

Seríamos um país sério, solidário e patriota, se tivéssemos, na escolha dos nossos políticos, a mesma empolgação que nos faz chorar nas arquibancadas. E se os mega-estádios recém construídos para a copa estivessem vazios quando iniciassem os jogos. Aguardemos para ver onde estarão os cartazes de protesto quando a copa iniciar. Seria interessante se pudéssemos visualizar os rostos dos milhões que lá estarão. Identificaríamos a maioria dos manifestantes. Sei que não é simpático dizer isto. Mas é a lamentável verdade.

 Enfim, também sou pai, pago passagens e tenho filhos na universidade. Vou propor um acordo, antes que mais gente se machuque. Hoje eu pago o reajuste das passagens dos meus filhos e amanhã todos votamos certo.

 



Miro Saldanha | Música Gaúcha com cara de Brasil