Ponto de vista

EDUCASÃO CORRETA?


 

 

Prezado leitor (a)

Se você não conseguiu resistir à tentação de corrigir o erro do título, talvez não leia o resto deste artigo, visto que a palavra que aparece escrita de forma incorreta é bem mais complexa e abrangente do que sua grafia. Entretanto se, ainda assim, achar que o conteúdo deste comentário pode ser mais interessante do que mera aparência, leia-o.

 Não sou um profundo conhecedor do assunto, apenas um pai. Mas é inegável que a educação é um trabalho contínuo que, pela sua dimensão e importância, deve envolver a família, a escola e o Estado. A ausência, desestruturação ou omissão de qualquer um desses agentes cria uma lacuna que pode dificultar ou até anular o trabalho dos demais. 

Infelizmente, em nosso país o Estado é omisso, o que inibe o trabalho da escola. Mas, é interessante que se observe que,  até por conveniência,  tende-se a estabelecer uma forte associação do que seja EDUCAÇÃO com o conceito de ALFABETIZAÇÃO, focalizando apenas o sentido escolar da primeira e desvinculando-a de seu sentido global.  Isso empurra para a escola e para o Estado toda a tarefa de educar, amputando um dos componentes principais do conjunto: a EDUCAÇÃO FAMILIAR.

 No turbilhão em que está mergulhada a sociedade moderna, a EDUCAÇÃO FAMILIAR vem recebendo cada vez menos atenção, posto que a própria família, para nosso desespero, parece caminhar a passos largos no rumo da extinção. O afastamento cada vez maior dos conceitos sociais que sempre orientaram a união das pessoas, a constituição de família e a geração de filhos, tem levado a uma desalentadora banalização dos relacionamentos, com uma assombrosa estatística de pais separados ou que, pior ainda, nunca viveram juntos.

 Nas classes com poder aquisitivo um pouco maior, a queda desses conceitos básicos e a ausência de limites somam-se a uma gama infindável de informação extra-familiar quase sempre nociva, o que leva o jovem  a uma falsa idéia de total liberdade, agravada pela desocupação e pela falta de referências sólidas. Por outro lado, nas camadas menos favorecidas estão os que, assolados pela miséria, geram filhos obedecendo puramente ao instinto, sem qualquer preparo ou informação sadia. A soma de todos esses fatores resulta em  uma perigosa mistura que estimula a iniciação cada vez mais precoce da atividade sexual entre jovens, tornando o despreparo familiar um círculo vicioso que gera cada vez mais crianças erradamente educadas, mais adolescentes desorientados e, consequentemente, mais pais despreparados.

Nesse circo, não só aumenta o número de avós que criam os netos, como o número de netos criados pelos avós.

A despeito  das circunstâncias, a pedra fundamental da educação ainda repousa sobre os alicerces do lar, na educação familiar. Essa é fase mais importante e também  a mais polêmica porque obedece a critérios pessoais antes de a critérios sociais. E, como em todo o juízo pessoal, o caráter conceitual dos parâmetros disponíveis  gera dúvidas: qual seria a forma ideal de educação? A conservadora? A liberal? A repressiva? Ou um misto moderado das três, eliminando-se os extremos? Nessa última hipótese, até onde eliminar, o que pode ou deve ser eliminado e o que deve ser considerado "moderado" ou “extremo”? 

Se fizéssemos, aos pais, as poucas perguntas listadas acima, já teríamos um número infindável de respostas. Em outras palavras, quando se trata de educar não existe regulamento, receita ou catecismo que nos possa garantir um bom resultado. Até sorte é importante. Além disso, não existem dois indivíduos iguais, isto é, cada criança reage de forma diferente a um determinado estímulo, o que faz de cada caso um caso. Mas isso não justifica nossa omissão ou desistência.

Acho que todo o pai ou mãe que se preze, concordará que tem de haver uma diretriz e um delimitador na educação de uma  criança. Para que qualquer nau chegue a bom porto, tem de haver uma mão firme no leme. Às vezes, quem escreve “educasão” educa melhor que alguém que se considera mestre no assunto, e isso prova que a educação familiar não está vinculada à cultura, muito menos à escola. Portanto, é necessário que se diga que não adianta transferir para a escola, de forma cômoda e até covarde, toda a responsabilidade de educar nossas crianças e jovens. Nos dias atuais, nossos professores têm sido pais, amigos, conselheiros,  psicólogos, psiquiatras e peritos em mais uma  série de especialidades que não estão previstas em nenhum plano de ensino. Em breve, e até já testemunhei alguns casos, terão de conhecer algum tipo de arte marcial ou, no mínimo, alguma técnica de defesa pessoal.   E como se isso não bastasse, ainda têm de enfrentar a ingerência estrábica do Estado e conselhos tutelares muitas vezes omissos, perante os quais, pais e professores estão sempre no banco dos réus. Que o Estado se omita mas que, pelo menos, não atrapalhe. Crucificar um pai ou uma mãe que dá uma palmada num filho não é papel do Estado. O papel do Estado é investir na educação, proporcionar um ensino gratuito e de boa qualidade, com infraestrutura e profissionais bem pagos.Transferir um vândalo agressivo de uma para outra escola e considerar a questão encerrada, sem acompanhar o caso, não é resolver o problema, mas substituir a vítima.

Enfim, para que possamos sonhar com melhores dias, façamos nossa parte e rezemos para que a família se reconstitua, o Estado faça seu verdadeiro papel e a escola possa crescer e melhorar.

Naturalmente, o aqui escrito não se configura obrigatoriamente na expressão da verdade. Retrata apenas o meu ponto de vista.



Miro Saldanha | Música Gaúcha com cara de Brasil